Prophesy upon these bones, and say unto them,
O ye dry bones, hear the word of the Lord.


14.07.2008

onde quer que eu repouse minha cabeça

Then went the devils out of the man, and entered into the swine: and the herd ran violently down a steep place into the lake, and were choked.

após quase um ano de inatividade por aqui e por quase tudo que presta, volto direto do topo da privada, com o laptop numa mão, um livro budista na outra e a frasezinha melódica de 2 rights make 1 wrong na cabeça.

bom sinal, acho.

estou vivo e pareço estar saindo da catatonia espiritual, intelectual e quiçá até física. tenho passado os dias repetindo mantras urbanos como um dia de cada vez ou o primeiro degrau está sempre muito próximo do chão e coisas do tipo. parece funcionar. sério. é um lance meio ORAI SEM CESSAR, meio caminho do peregrino. só que com um apelo de piedade mais discreto.

se tudo der certo, em uma semana posso voltar a ouvir death in june.

bueno, acho que era isso. tenham um bom dia, livre de intoxicações alimentares.

14.10.2007

BMIK

Black Metal é neododecafonismo.

mãos de cavalo, camel e o lúcifri

(Nada como o torpor mental de dezenas de horas sem dormir para se entrar em estados bastante primitivos de consciência e ficar se sentindo assim, meio neardental. Se liguem, crianças: maneira barata e relativamente segura de se drogar. Meio demorada, sim, mas a paciência é uma virt - ah, deixa pra lá.)

Li o Mãos de Cavalo do Galera quase que numa sentada só e olha, achei muito bom. Não mais do que eu esperava, talvez por esperar muito, mesmo. O realismo meio furioso que ele empregou em diversas passagens da narrativa me interessou, e não foi pouco. Acho que é a primeira vez que isso me acontece. As primeiras páginas são de deixar qualquer gordinho transpirando de felicidade por um bom tempo. Invejei. Anotações mentais a cada três minutos de leitura: descobrir o que galera anda lendo (pt) urgente (pt). Moral da história: leiam.

/incidente curioso: comprei o volume numa das quasi-livrarias que temos nesta urbe londrinense. Trinta pilas bem gastos. Quatro dias depois, zanzando pelo Sebo Capricho, encontrei um exemplar idêntico, novinho, aparentemente nem mesmo folheado pelo antigo dono. Oito pilas. Comprei. (Pra constar: no mesmo dia, consegui reunir na cestinha Manoel Carlos Karam, Valêncio Xavier e Álvaro Cardoso Gomes, todos irremediavelmente fofos em suas edições e respectivos estados de conservação, o que nos leva a crer que passar horas carimbando os olhos em todos os exemplares de sebos pode ser um exercício mui fértil, dependendo da carga de recomendações que o praticantedo esporte silencioso tem na cachola.)

Também acho que é a primeira vez que me acontece de comprar dois exemplares idênticos de livros ainda não lidos. Espero que a prática não acarrete nenhum transtorno compulsivo. Meus bolsos agradecem.

Tenho uns comentários igualmente dispensáveis pra fazer sobre o Sonho Interrompido por Guilhotina, mas fica pra depois. Prometo. Aproveito pra embalar aquela soneca ishpérhta e úmida da tarde com o Satanique Samba Trio: canção para atrair má sorte ato I. Meigo.

23.06.2007

alegoria explícita

Todorov, escrevendo em 1970 e fazendo uma ponte bizarra com as coisas que passei pensando nos últimos três anos sobre a minha produção e a obra de alguns autores que estimo:

In this type of allegory, the level of literal meaning has slight importance; the evident improbabilities do not matter, all our attention is focused on the allegory. We may note that narratives of this kind are rarely enjoyed today: explicit allegory is regarded as sub-literature (and is difficult to avoid interpreting this condemnation as an ideological stance).

18.06.2007

a rota búlgara não inclui condados nominalmente saxões

semana passada fui assistir a montagem d’o púcaro búlgaro feita por um povo ládo rio de janeiro e o caio (el amico leitor que por milagre mora em londrina e gosta de campos de carvalho. ao mesmo tempo. não me levem a mal, londrinenses, mas é que no geral cês são, ahn, deixa pra lá) perguntou se eu tinha gostado da peça. suspirei e respondi que não.

primeiro que eu tava de mau humor no dia, o que talvez afetasse a neutralidade da coisa, mas eu não sou crítico, então tá valendo. tu, ó amigo da posteridade que tá lendo isso, não liga pra antipatia. segundo que eu fui atrás de um texto e não especificamente um texto teatral. talvez toda a merda também tenha nascido daí. mas enfim. chega de talvezes.

acessar o plano ficcional do campos de carvalho num ambiente assim, tão compartilhado, foi uma das piores experiências possíveis. ok, talvez perdesse pra uma semana numa cadeia brasilena, mas eu nunca fui preso, então posso comparar a sensação com a extração de líquor da medula. sentiram? tá, eu sei que não. mas não é viadage do tipo “ahhh passou na mtv então não presta” (embora isso também faça certo sentido). acontece que um teatro lotado de pessoas gargalhantes definitivamente não é o melhor lugar pra se ter contato com um texto. aí alguém levanta a mão e diz que o espetáculo não era um texto, era TIATRO. sim, concordo. mas mesmo sendo tiatro, porra, pegaram um texto do campos de carvalho e isolaram, tiraram do contexto da obra (leiam ‘obra’ no sentido ontológico da coisa, tipo aquele lance da ética aristotélica) e jogaram em uma hora e quarenta minutos de interpretações totalmente televisivas, uma mistura de trapalhões com castelo ra-tim-bum. os ‘maiores’ efeitos sobre o público foram tirados de gracejos físicos (los três patetas), grunhidos, trocadilhos isolados e caretas, tudo flutuando numa camada obscurecida, sem conexões ou com conectivos jogados num plano muito além do segundo.

aí um outro alguém levanta a mão e diz que pra se fazer tiatro, essas coisas são necessárias, diz ‘o que é que tu sugere então?’. bom, eu sugiro que não façam esse tipo de adaptação. saí do teatro pensando que texto é texto, teatro é teatro, teatro pode ser texto, mas texto não deve ser teatro. talvez com algumas exceções, mas exceções que envolvam uma demiurgia das braba por parte do dramaturgo, com o ’saber fazer’ soltando fogo por todos os buracos, a ponto de explosão. claro que isso tem a ver com a empatia que se tem pela leitura que o dramaturgo faz do texto, em como ele traduz linguagens e é claro que isso é algo muy abstrato. mas dá pra julgar por aproximação, assim como julgamos traduções de textos literários, por exemplo. um exercício sempre divertido de tentar sentir o bafo do autor pelo texto traduzido.

fui embora sem sentir o cheiro do campos de carvalho, o que foi muito frustrante. bate o pavor quando penso na possibilidade de ver outras comédias assim tão crassas, feitas em cima de textos de autores que estimo. e ainda sentado na poltrona, quase tive um infarto ao imaginar o estrago que não fariam com um texto meu, já existente ou não. lembrei de uma vez em que um cara me escreveu pedindo autorização pra roteirizar um conto que eu tinha escrito e na época eu disse okay, algo que não faria oggi. sorte que a coisa não rolou, provavelmente teria sido catastrófico.

talvez esse ciúme (ou outro sentimento qualquer, you name it) tenha nascido pelo fato de eu ser escritor e achar que o gran ato se dê mesmo na leitura, nessa comunicação aconchegante entre autor e leitor, sem intermediários, sem vozes, sons, luzes, cores e tantas distrações. um fluxo imaterial de mente a mente, com transmissão de universos multifacetados, tudo isso carregado por toneladas do elemento que se conhece como Imaginação.

mas é isso, chega de reclamar por hoje, vou dormir, até porque não é legal ficar falando demais sobre alguma coisa da qual não se gosta (repitam comigo: não é legal ficar falando demais sobre alguma coisa da qual não se gosta. não é legal ficar falando demais sobre alguma coisa da qual não se gosta). As thou hast said.

21.05.2007

carta de amor para a Menina-Desconhecida-Que-Povoa-Minha-Mente-Quando-Durmo

 
awake: shake dreams from your hair, my pretty child, my sweet one. choose the day and choose the sign of your day, the days divinity. first thing you see.

cinco da manhã de sexta-feira e estou babando no travesseiro de vários tons de verde - nunca gostei de verde, mas tudo na minha casa é verde. o teu travesseiro tá debaixo do timothy leary, debaixo do nabokov, do vonnegut. debaixo das coisas que comecei a rabiscar quando percebi que um dos meus maiores e únicos medos tá acontecendo: de repente comecei a perder a memória. e ao mesmo tempo percebi que minha visão anda nebulosa (recado pra eu mesmo: isso deve ser sinal pra tu começar a ler mais, vai que fica cego de vez, nunca se sabe; veja bem: muitos sinais ultimamente, seja lá o que isso signifique na prática, se houver prática). paciência.

e de noite você (olhos boca cabelo nariz óculos pescoço pele) fica ainda mais fuckin’ nice e, ai caramba, simplesmente não dá pra fugir desses clichezinhos. por isso voltei a ouvir músicas de amor. você passa em frente à minha sala, pára pra olhar o mural de avisos. vagas em pensão de boa localização, xôu de róque esse final de semana com três bandas chegue cedo porque a chapa vai esquentar, congresso de sociologia, especialização em psicanálise, literatura hispânica, vendo computador em bom estado sem monitor, aulas de yoga, descubra a verdade sobre a vida e seus mistérios, tradução revisão digitação pesquisa eletrônica, vote nulo. o melhor sorriso do universo. e de repente percebo que a sua casa é bem mais próxima à minha do que eu imaginava.

i am one as you are three: try to find messiah in you trinity.

onze da manhã de sábado e, engraçado, não penso nas horas quando acordo porque a palavra três me diz bom dia sorrindo torta e me faz perceber que, caralho, você tem três até no nome. tropeço até a sala, me estiro no tapete e fico olhando o teto e lembro que é dia de pôr o lixo pra fora, que talvez o caminhão do lixo já tenha até passado. não tem problema. olho pela janela e vejo que chove. tiro as meias antes de sair.

quando chego na rua, penso em como a chuva de maio é fria.

20.05.2007

presepadas

Fabiano Alves Paes, um dos escritores mais legais de Londrina, tá cada vez melhor. Vão por mim.

– Timothy, você se esqueceu dos primeiros capítulos de Gênesis? Jeová diz para Adão e Eva: “Eu construí este refúgio maravilhoso para vocês a leste do Éden. Vocês podem fazer tudo o que quiserem, exceto comer o fruto da Árvore do Conhecimento”.
— As primeiras substâncias controladas.
— Exatamente. A bíblia elaborou a primeira legislação de proibições de alimentos e drogas.
— Portanto, a queda e o pecado original foram causados pela ingestão de drogas ilegais.
A essa altura, Aldous dava risadinhas de prazer, satisfeitíssimo consigo próprio, e eu rolava no chão de tanto rir.

(Timothy Leary, Flashbacks)

19.05.2007

this is [not] dyslexia

           há que haver os que despertam à meia noite, angustiados, e põem se a gritar e a clamar dentro das trevas, como uns loucos - não o sendo - e exprimem numa linguagem que não é a sua, nem a de seus pais, nem a de qualquer outro povo da terra, estranhas visões inacessíveis gravadas em suas retinas

três da manhã de sexta-feira e eu com cinco pedaços de chocolate numa mão e um livro do campos de carvalho na outra e uma calça de moletom pendurada na cintura e meias fofas e quentes e cinzas - meu atestado de velhice sorrindo debaixo do maior chinelo do mundo. nunca imaginei o oak fields assim tão dissimulado, mas acho que no meio dessas linhas todas consigo sugar algo que (piada interna) vou chamar de essência, isso, deve ser o el gran ser que entope o universo particular do cara, se espalhando por todos os entes também particulares, os libros, textos soltos, pequeninos y flutuantes, mesmo que ele não se reconheça no meio dos poemas - e talvez tenha razão: eu nunca engoli essa história de que o que é não pode não ser ao mesmo tempo.

           e depois serenam como o mar após a tempestade e não sabem mais recordar aquilo que disseram, e choram quando lhes mostram seus puros êxtases, e sentem-se miseráveis despertados mas

pra falar a verdade, o que importa mesmo numa hora dessas é que é tudo muito bonito, não dá pra simplesmente virar a página como se vira em ottros livros. fico lendo e relendo e relendo certos parágrafos e acho tão do caráleo que de repente começo a andar pela casa de meias e moletom e chocolate na mão e declamar, assim, essas coisas épicas todas no meio da madrugada, E AS GRANDES CASAS DESERTAS E AS PRAÇAS E AS RUAS JUNCADAS DE CADÁVERES SERIAM TAMBÉM INVADIDAS PELA ENORME ESCURIDÃO, TOTAL E INFINITA.

o resto do mundo — onde se incluem os vizinhos — não existe.

07.05.2007

mu

/moo/ The correct answer to the classic trick question “Have you stopped beating your wife yet?”. Assuming that you have no wife or you have never beaten your wife, the answer “yes” is wrong because it implies that you used to beat your wife and then stopped, but “no” is worse because it suggests that you have one and are still beating her. According to various Discordians and Douglas Hofstadter the correct answer is usually “mu”, a Japanese word alleged to mean “Your question cannot be answered because it depends on incorrect assumptions”. Hackers tend to be sensitive to logical inadequacies in language, and many have adopted this suggestion with enthusiasm. The word `mu’ is actually from Chinese, meaning `nothing’; it is used in mainstream Japanese in that sense, but native speakers do not recognize the Discordian question-denying use.

aye aye, Serebnik. puta palavrinha massa, hein? leitores do AOS: dá pra fazer um paralelo (sim, parcial, claro) com um conceito do Bicho Papão. quem fizer o gol na caixa de comentário ganha chocolate.

(sério. comprei um quilo de chocolate. acho que vou levar dois meses pra comer tudo.)

06.05.2007

naquele tempo tínhamos treze infinitos

Pena eu ter demorado tanto pra topar com os livros do Nelson de Oliveira. O cara entrou direto pra minha lista de autores brasileiros favoritos, que infelizmente é bem menor do que eu gostaria. Domínio técnico, imaginação transbordante (para os desavisados: enredo, subtexto, linguagem, todo tipo de artimanha narrativa), saber o que se está fazendo: coisas que considero vitais pra qualquer ficcionista.

30.04.2007

coisa mais fabulosa dos últimos tempos

Holandês constrói arca de Noé após sonho: Huibers começou a constuir a arca em maio de 2005, depois que ele sonhou que a Holanda seria atingida por inundação. No interior da arca, ele colocou girafas, elefantes, leões, crocodilos, zebras e bisões.

25.03.2007

lucifer getting back to london

sonho que, depois de chegar em casa, resolvo desmontar o carro com uma faca de cozinha. acumulo mil parafusos numa caneca de café. no lugar do motor, encontro um escorredor de louça. um pouco mais pra baixo, um buraco, de onde começa a jorrar água sem motivo algum.

decepcionado, tento remontar o motor, usando os parafusos que se transformaram em colheres e bombas de chimarrão. não dá certo. fico atordoado e acho que o melhor é acordar.

tropeço até a cozinha, olho a direção do sol entrando pela janela, penso que é muito cedo. o microondas marca 00 seguido de 00. aperto o botão de cancelar compulsivo, mas a hora não aparece. deve ter acabado a luz de madrugada.

ouço um tic-tac-tic-tac-tic-tac e lembro que comprei um relógio que, quando tirei da embalagem, quase desintegrou na minha mão. dois pilas numa lojinha duvidosa do centro. nove horas. cedo, quase madrugada.

volto pro travesseiro, durmo antes mesmo de fechar os olhos e dessa vez sonho que estou em são paulo, tomando chá com um rabino alemão, que me confessa que, quando ninguém está olhando, reza pra maomé.

quando acaba o chá, estou na porta de uma catedral, descalço, vestido com trapos rasgados que costumo chamar de pijama. sinto os olhos inchados. um casamento deve começar em breve. os convidados vão entrando e, ao passar por mim, sorriem e dizem oi. não conheço ninguém. um cachorro marrom, com duas moscas zanzando em volta das orelhas, deita em cima do meu pé.

sento num dos degraus e enfio a mão nos bolsos, que estão furados. não encontro relógio nem cigarros. penso que preciso ir pra casa, tenho nove textos pra terminar. mas bocejo, coço a cabeça e acabo dormindo.

quando acordo, é domingo e decido mais uma vez que farei macarrão pro almoço.

21.03.2007

eu te amo, internet

Hah: BINGO

I had the weirdest revelation listening to Rime of the Ancient Mariner: The guitar and drum part right after the spoken word section is almost exactly like “Mogwai Fear Satan,” by Mogwai.

OWNED.

mogwai fear the ancient mariner

Alguém aí já percebeu a semelhança entre Mogwai Fear Satan, (do Mogwai, sim), e a segunda parte de Rime of The Ancient Mariner, da Donzela Férrea? Não sei se a alusão só existe na minha cachola, mas parece piadinha clara de referência.