semana passada fui assistir a montagem d’o púcaro búlgaro feita por um povo ládo rio de janeiro e o caio (el amico leitor que por milagre mora em londrina e gosta de campos de carvalho. ao mesmo tempo. não me levem a mal, londrinenses, mas é que no geral cês são, ahn, deixa pra lá) perguntou se eu tinha gostado da peça. suspirei e respondi que não.
primeiro que eu tava de mau humor no dia, o que talvez afetasse a neutralidade da coisa, mas eu não sou crítico, então tá valendo. tu, ó amigo da posteridade que tá lendo isso, não liga pra antipatia. segundo que eu fui atrás de um texto e não especificamente um texto teatral. talvez toda a merda também tenha nascido daí. mas enfim. chega de talvezes.
acessar o plano ficcional do campos de carvalho num ambiente assim, tão compartilhado, foi uma das piores experiências possíveis. ok, talvez perdesse pra uma semana numa cadeia brasilena, mas eu nunca fui preso, então posso comparar a sensação com a extração de líquor da medula. sentiram? tá, eu sei que não. mas não é viadage do tipo “ahhh passou na mtv então não presta” (embora isso também faça certo sentido). acontece que um teatro lotado de pessoas gargalhantes definitivamente não é o melhor lugar pra se ter contato com um texto. aí alguém levanta a mão e diz que o espetáculo não era um texto, era TIATRO. sim, concordo. mas mesmo sendo tiatro, porra, pegaram um texto do campos de carvalho e isolaram, tiraram do contexto da obra (leiam ‘obra’ no sentido ontológico da coisa, tipo aquele lance da ética aristotélica) e jogaram em uma hora e quarenta minutos de interpretações totalmente televisivas, uma mistura de trapalhões com castelo ra-tim-bum. os ‘maiores’ efeitos sobre o público foram tirados de gracejos físicos (los três patetas), grunhidos, trocadilhos isolados e caretas, tudo flutuando numa camada obscurecida, sem conexões ou com conectivos jogados num plano muito além do segundo.
aí um outro alguém levanta a mão e diz que pra se fazer tiatro, essas coisas são necessárias, diz ‘o que é que tu sugere então?’. bom, eu sugiro que não façam esse tipo de adaptação. saí do teatro pensando que texto é texto, teatro é teatro, teatro pode ser texto, mas texto não deve ser teatro. talvez com algumas exceções, mas exceções que envolvam uma demiurgia das braba por parte do dramaturgo, com o ’saber fazer’ soltando fogo por todos os buracos, a ponto de explosão. claro que isso tem a ver com a empatia que se tem pela leitura que o dramaturgo faz do texto, em como ele traduz linguagens e é claro que isso é algo muy abstrato. mas dá pra julgar por aproximação, assim como julgamos traduções de textos literários, por exemplo. um exercício sempre divertido de tentar sentir o bafo do autor pelo texto traduzido.
fui embora sem sentir o cheiro do campos de carvalho, o que foi muito frustrante. bate o pavor quando penso na possibilidade de ver outras comédias assim tão crassas, feitas em cima de textos de autores que estimo. e ainda sentado na poltrona, quase tive um infarto ao imaginar o estrago que não fariam com um texto meu, já existente ou não. lembrei de uma vez em que um cara me escreveu pedindo autorização pra roteirizar um conto que eu tinha escrito e na época eu disse okay, algo que não faria oggi. sorte que a coisa não rolou, provavelmente teria sido catastrófico.
talvez esse ciúme (ou outro sentimento qualquer, you name it) tenha nascido pelo fato de eu ser escritor e achar que o gran ato se dê mesmo na leitura, nessa comunicação aconchegante entre autor e leitor, sem intermediários, sem vozes, sons, luzes, cores e tantas distrações. um fluxo imaterial de mente a mente, com transmissão de universos multifacetados, tudo isso carregado por toneladas do elemento que se conhece como Imaginação.
mas é isso, chega de reclamar por hoje, vou dormir, até porque não é legal ficar falando demais sobre alguma coisa da qual não se gosta (repitam comigo: não é legal ficar falando demais sobre alguma coisa da qual não se gosta. não é legal ficar falando demais sobre alguma coisa da qual não se gosta). As thou hast said.